Grão a grão, areias de ideias e motivações, empurradas pelos ventos da memória, vão deixando mensagens intemporais... Troca de informação sobre o que se passa (e nos interessa) no campo da ciência, cultura e artes.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
... textos curtos... nº2
DIA 0 / Nunca fui de acreditar muito em
coisas como homeopatia, acunpultura, etc… embora reserve sempre estes assuntos
para uma gaveta onde guardo os não explicáveis, os desconhecidos, os
incompreensíveis… na esperança que um dia ainda lá vou na busca de resolver perguntas
perdidas ou necessidades prementes. No outro dia, a juntar à lista, veio, em
conversa informal numa quente tarde de verão, a histórias das feromonas
humanas. Este é outro assunto que está na tal gaveta, embora saiba que no mundo
dos seres vivos (em particular insectos e plantas), as feromonas são moléculas
identificadas, de estrutura já conhecida; utilizando diferentes aromas ou
mensagens químicas, como meio de comunicação, vários códigos são enviados em
geral por via aérea. Tudo tem a ver com receptores e reconhecimento molecular.
Mais discutida e menos estudada a suspeita de feromonas humanas. A sua presença
parece pairar e quase demonstrada em comunidades fechadas, por exemplo de
mulheres, que pelo facto de estarem juntas (mosteiro, colégio) entram numa
espécie de bio-ritmo ressonante, como por exemplo, ciclos menstruais. Uma explicação é que compostos voláteis
relacionados com o despoletar do evento são transmitidos e reconhecidos pelas
comunidades. Suskind, no livro “O Perfume” fala neles e não é por acaso que o
heroí, usando a sua produção sensorial, atrai multidões e é literalmente comido,
como que num acto de “amor e atracção”.
De
divagação em divagação falámos nos hábitos de leitura, do gostar de ler e não ler,
e se por acaso haveria moléculas que poderiam ser reconhecidas e levar a
desejos compulsivos de leitura. Numa nota de rodapé, este problema do controlo
consciente ou inconsciente de multidões tem o que se lhe diga, e até leva a
pensar se os grandes ditadores não teriam conhecimento deste know-how.
Tudo
isto ficou a fervilhar…
DIA 1 / Entre a Química e Bioquímica
deve haver metodologias a experimentar que possam dar alguma satisfação
intellectual ao problema. A Clara Pinto Correia, num conto escrito há anos, aplicava
metodologias destas áreas para estudar ficcionalmente a molécula do prazer. O
problema é tentador, desafia qualquer um… e se não se tentar nunca se sabe… existem
as tais moléculas da leitura (MdeL)? Etapa inicial = procurar compostos
voláteis num ambiente fechado em que uma elevada população estivesse a ler. Uma
Biblioteca seria um local potencialmente a ser explorado. As MdeL, expiradas
pelos leitores/amadores (no sentido de amar ler), deveriam estar no ar ambiente
e deveriam transmitir na vizinhança indução de mais hábitos de leitura.
Premissa elementar: os métodos experimentais exigem concentrações apreciáveis.
Em princípio a ideia seria concentrar o ar ambiente, adsorver os componentes
voláteis num suporte próprio e purificar as MdeL. Em etapas intermediárias, em
que a ftriagem fosse feita, deveriam permitir ter fracções que o próprio
experimentador podia usar (ou num colaborador conveniente, cúmplice e crédulo)
e registar se sentia desejo aumentado para o acto de leitura.
DIA 2 / Tentiva de design de um sistema
experimental. Um grande saco afunilado com uma sucção colocada no fundo, onde
entreposto seria posto um adsorvente (vários materais seriam testados… carvão
activado, silica gel, zeolite). Um esquema foi desenhado. (ver esquema que deve
ter um ar de Leonardo da Vinci).
DIAS 3 e 4 / Tempo de aquisição e construção
do protópito.
DIA 5 / Obtenção de licensa para
colocação do captador de MdeL num local duma Biblioteca (muito frequentado) e dissimulado.
Todo o sistema foi optimizado para ser silencioso (amortecedores de espuma na
base da instalação e uso de um motor/ventilação /sucção adequado).
DIA 6-10 / O sistema usando silica gel
esteve a operar em contínuo. O adsorvente foi retirado e colocado num
Erlenmeyer fechado em atmosfera inerte. Retirada com uma seringa uma parte do
espaço gasoso a inalação do mesmo não produziu efeitos… nem motivações, nem
alteração de disposição. A pensar num modo de extrair algum material que possa
estar absorvido.
DIA 11 / O material foi dividido em 3
partes e posto em contacto com um solvente aromático, um apolar e um polar
(água), tudo em atmofera inerte de azoto. Agitação contínua do sólido na
presença dos solventes testados. Centrigugação dos 3 conteúdos para remover o
sólido. Evitar respirar o solvente aromático.
DIA 12 / Todos os extractos foram
submetidos a técnicas analíticas, de cromatografia e de espectrometria de
massa. Não foram detectados compostos.
DIA 13 / Para refletir e não desistir.
DIA 14 / Repetir todo o processo usando
carvão activado. Montagem do sistema.
DIAS 15-20 / Sistema com carvão
activado a operar em contínuo.
DIA 21 / Extracções com os 3 sistemas
anteriormente descritos.
DIA 22 / Análise química. A
cromatografia e a espectrometria de massa detectam um composto de baixo peso
molecular no solvente aquoso. Estimulante este resultado. Parece ser um
composto único o que vai facilitar a identificação. Transferida uma alíquata da
solução aquosa contida em sistema fechado e deixáda aberto ao ar. Nova análise não
detecta nenhum composto. Deve ser muito volátil ou sensível ao ar.
DIA 23 / A exitação do momento não
deixa descansar.
DIA 24 / Miro e remiro o fraco e a
solução aprisionada em atmosfera inerte. Preciso de fazer algo mais para
avançar na identificação do composto. A tentação é muito grande. Abrir o frasco
e inalar/respirar. O suor escorre pelas fontes. As mãos tremem. Terá algum
efeito?… toxicidade, dependência, efeitos colaterais … será apenas um sonho em
solução aquosa?
DIA 25 / A situação está a ultrapassar
os limites.. não como, não durmo… pergunto se devo patilhar com alguém,
correndo o risco de ser considerado pouco credível, louco…
Aquele
frasco é uma lâmpada mágica, uma poção mágica… o talvez seja nada.
É
impossível… imparável… Vou abrir um pouco o frasco, respirar… abro… tremo…
Inspiro num grande amplexo…
DIAS XX / Não sei quantos dias se passaram.
Entrei num estado de sonulência, semi-consciência, letargia!
Devo
ter acordado entretanto… agora, ontem, há quanto tempo?
Estou
magro e esfomeado. À minha volta a sala parece ter sofrido um turbilhão. Os
livros estão fora das estantes… ahhhh… Tenho estado a ler, estou a ler, quero
ler, não posso parar de ler… queridos autores… companheiros generosos, tanto
saber, tanta informação, tanto desafio A leitura parece facilitada, meus olhos
são leitores quase digitais, metamorfoses adaptadas a este novo estado. Estou
feliz, meus receptores estão saturados por essa molécula que se adsorveu no
carvão activado... não quero saber o que é… sei que existe e me fez ultrapassar
e viver um estado espiritual diferente… nem sei porque estou a escrever?
O que quero é ler, ler, ler…
domingo, 15 de setembro de 2013
... textos curtos... nº1
. , ; : ! ? Os
Pontos
Cena única - no Consultório de um Psiquiatra
Fonte de inspiração
O Canto dos Fantasmas (João Aguiar,
Publicações D.Quixote)
A Metamorfose (Franz Kafka, ed. Livros do
Brasil)
Como diz, senhor doutor ? Sim, estou bem,
sinto-me fisicamente bem ... acanhado ? Não !!
Quer dizer ... deixe-me explicar. Não leve a
mal nem julgue que isto tem a ver consigo, mas
acontece que fico sempre que a modos de
esquisito quando tenho de dar o nome e as restantes informações para uma ficha
médica ... como se a ficha me vinculasse à doença, entende ?? Acertou, tenho
medo de consultórios, é uma atitude irracional. O senhor, de mais a mais, um psiquiatra,
há de saber que o homem não é feito só de racionalidade ....
Deixe lá ... dentro em breve já estou mais à
vontade.
Por mim podemos começar, estou pronto a
deitar-me no divã. Tem piada ... não há divâ ?!!
Desculpe, que vergonha ... ideias
preconcebidas ... por mim tudo bem, esta poltrona até é
confortável. Enfim, estou pronto.
Ah ... começo eu ? É lógico. Mas vejo-me
obrigado a dizer-lhe que tenho uma certa tendência para a divagação. Se me
afastar meta-me na ordem.
Bem, vou começar. Tem toda razão, o tempo é
precioso. Começo por lhe dizer que não sofro
de doenças do forum psiquiátrico, pelo menos
segundo o que conheço.
A razão desta consulta é a seguinte: tenho
passado ao longo da minha vida por uma experiência, várias vezes repetida com
nuances diversas, que me marcaram e intrigam profundamente ao ponto de se
tomarem obsessivas ...
É delas que vou falar .. .. Experiências que
quase me levam a enlouquecer pela sua persistência ...não devia usar o termo
enlouquecer ...eu não estou ... OK?
Ah, compreendeu! ! !
A primeira vez aconteceu há cerca de 25 anos,
andava eu no Técnico ... Despertei, certa manhã, de um sono agitado e vi que me
transformara num ponto .... Pois exatamente um ponto ... negro, redondo,
isotrópico .. desculpe o palavrão da física, igual em todas as
direções do espaço em que seja observado.
Permaneci assim, imóvel ... bem ... rebolando
um pouco de um lado para o outro ... um ponto negro debaixo de um lençol branco
...
"Que terá acontecido ?" pensei eu
... Não é um sonho ... Estava contido nas paredes familiares do meu quarto de
dormir, a mobília, os papéis, os candeeiros, os cortinados ...
Olhei para a janela ... chovia ... "E se
eu dormisse um pouco mais ?" pensei ... Mas isso era impossível ...
costumava dormir de lado e agora só rebolava.
Como diz? Algum trauma familiar? Nada de
especial ... infância sem história ...
Confuso isto não é? Para maior clareza,
importa-se que eu fume? Bem sei que nos consultórios ... mas este é um
consultório diferente ... Bom, obrigado. Mas, não ... não vou fumar. Só fumo
cachimbo e depois isto ficava tudo empestado. Mais uma vez obrigado ...
Bem mais tarde isto repetiu-se. Estava em
Inglaterra a fazer o doutoramento ... cinco anos depois ...mas ao acordar
sentia-me inspirado pela experiência anterior, era assim com uma espécia de
memória inconsciente ... Percebe o que estou a dizer? Queria ser mais ...
aparecia
como dois pontos, depois transformava-me em
três pontos, estilo reticências ...
Pois já está a pensar ... dois pontos ...
esquisófrenia, alter-ego, dupla personalidade … três pontos ... indecisão, ou
talvez qualquer coisa como os heterónimos daquele escritor ... nem me lembro o
nome !!! ....
Parece-me que estou a divagar. Bem o tinha
avisado, é um péssimo hábito meu ... um amigo
meu diz que sou como as bonecas russas ..
abro muitas caixinhas e não as fecho ... fica tudo numa grande confusão.
O problema é que nos últimos tempos isto é
cada vez mais frequente e com muitas nuances, mais complicações e maior
variedade ...
O estranho é que o fenómeno de que tenho
vindo a falar acontece agora de modos imprevisíveis, sem nexo ou ordem, e
preocupa-me se alguém me observa ou me questiona .
além de poder ser molestado pois um ponto é
insignificante (mesmo que dois ou três) e sabe-se lá o que me pode acontecer
...
Cheguei a tomar tranquilizantes, comprimidos
para tirar o sono. Experimentei uns e
abandonei vários ... Uma amiga minha, muito
viajada, até me trouxe uns chazinhos da China e nada de melhoras ...
Mas agora a transformação é múltipla... ponto
de interrogação, ponto de exclamação ... sei lá ... pareço o prontuário ....
Será que isto tem a ver com a minha procura interior, com a minha contemplação
e incompreensão do infinito, do desconhecido ????
Interrogo-me, questiono-me, maravilho-me,
espanto-me ....
Também fiz algumas leituras para tentar
compreender o fenómeno, sabe? ... descobri nessas leituras palavrões horríveis
como ... projecção metamorfósica, desdobramento tipo ou variante de OBE (out of
body experiment) ... os americanos inventam cada coisa .
Bem sei ... está a pensar ... este coitado
julga que é Kafka ." as ideias passam-lhe dos livros como as carraças da
erva para a cadela de um amigo meu que tem uma casa na Terra da Torre, ali para
a Arruda ...
Mas olhe Doutor ... já fiz psicanálise e ao
diabo para a psicanálise. Até tenho amigos no ramo sabe ? Até me fizeram os
testes de Rorschach ...
O que eu gostava era de ser capaz de repetir
as experiências e controlar os acontecimentos … Afinal ainda não esgotei a
pontuação. Muitas revelações se me deparam ainda. Já ouviu falar do Bartolomeu
Dias? E do Vasco da Gama? Também eles exploraram o desconhecido ... e se calhar
também lhes chamaram de doidos.
O que quero ? Como cliente que paga quero uma
receita que me dê poder para controlar o fenómeno ... Quero uma pílula de
controlo de projeção metamorfósica ou qualquer coisa assim…
Doutor, Doutor ...
Para que chamou esses homens? São
enfermeiros?
Espere aí !!! Você é um devoto do mundo como o
conhecemos, um adepto do obscurantismo iluminado ...?
Não está aberto a novas experiências e novos
conceitos ???
DOUTOR, O QUE ESTÁ A PÔR NESSA SERINGA ????
domingo, 25 de agosto de 2013
... a Cornualha...
O
pensamento (e a conversa) são como as cerejas… tira-se uma e arrastamos várias,
em pés entrelaçados. No outro dia em conversa com amigos, falávamos de
sentirmos muitas vezes vontade de reler livros que nos marcaram, noutros tempos.
Falámos de Tennessee Williams, Steinbeck e mais tarde veio à mente Daphne du
Maurier, e esta escritora trouxe à baila a Cornualha.
A
Cornualha tem escarpas agrestes e é um local mítico de brumas e nevoeiros
originados no mar, terras de mistério, fantasmas e piratas. Mas também um local
literário e artístico. Como por acaso, tenho passado os olhos por várias referências
a este aspecto (um exemplo foi um artigo dedicado à Cornualha na revista da TAP). Daphane du Maurier escreveu naqueles cenários Rebecca (um enorme sucesso que Hitchcock usou como argumento, assim como outro livro da escritora, Jamaica Inn e muitos mais).
O
saque e a pirataria não escaparam a Rudyard Kippling no poema Smugler´s Song.
Terras do Rei Artur, que Marian Zimmer Bradley usou na saga Brumas de Avalon e
por onde Harry Potter andou. Atraiu tragicamente Isolda que vinha casar com
Marcos, Rei da Cornualha, e se apaixonou por Tristão. Thomas Hardy, D. H.
Lawrence, Virginia Wool e Jonh Le Carré encontaram refúgio nas paisagens
voluntariosas. Paul Theroux viajou por lá de combóio. Gilbert and Sullivan
viram associado a sua ópera cómica Pirates of Pezance, ao grupo local de rugby,
hoje conhecido por Cornish Pirates. Esta presença artística levou a Tate
Gallery a abrir um galeria num lugar chamado St. Ives.
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